|
|
A sacola de feira que só estica quando a base não trava
Sacola de feira em ponto rede de barbante nº 4 com agulha de 4 milímetros, nível iniciante, com volta de base travada.
|
Sacola de feira em ponto rede, barbante nº 4
|
| ▼ |
| |
|
Uma sacola de rede sai da agulha com 38 centímetros de altura, entra na feira vazia e volta com 5 quilos dentro. No caminho de casa ela mede 50. A alça que era pra ficar na altura do quadril passou a bater no joelho, e o fundo raspa a calçada em cada passo.
A conta da deformação é simples de ver e desconfortável de aceitar: 12 centímetros de esticada em quatro quarteirões. A laranja de baixo escapa pelo arco que abriu, a alface amassa contra a coxa e a sacola vira um saco comprido em vez de uma bolsa.
Quem faz a peça costuma culpar o barbante. Troca o nº 4 por um fio mais grosso, aperta a mão, refaz a sacola inteira e vê a mesma esticada aparecer na segunda ida à feira, um pouco mais tarde e do mesmo jeito.
O ponto rede é feito de arcos de correntinha presos por pontos baixos. Cada arco é uma corda solta pendurada entre dois nós, e corda solta sob peso faz sempre a mesma coisa: endireita. Um arco de 3 correntinhas tem perto de 2,1 centímetros de fio guardados na curva, e o peso puxa esse fio pra fora até a curva virar reta.
O erro não está no fio nem na mão. Está na volta de base, aquela primeira volta que sai do fundo e recebe o primeiro arco. Quando ela é feita em correntinha solta ou em ponto alto vazado, a malha inteira ganha licença pra escorregar, e cada arco entrega o fio do arco vizinho.
A correção não muda o ponto e não muda o fio. A volta de base sai em ponto baixo pegando só a alça de trás, uma volta maciça e fechada, e o arco desce de 5 correntinhas pra 3. A base travada segura o pé da malha e o arco curto guarda menos fio pra ceder.
Junte as duas correções, mais uma alça em ponto baixo maciço, e a sacola muda de comportamento. Ela sai de casa com 38 centímetros, volta da feira com 5 quilos e para em 40. O que decide o resultado começa antes da primeira laçada: no barbante, na agulha, no número de arcos por volta e na amostra que prova a conta.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Peça do Dia
Sacola de feira em ponto rede para 5 quilos
|
|
A ficha completa da peça.
A peça de hoje: sacola de feira em ponto rede de barbante nº 4 com agulha de 4 milímetros, nível iniciante, com fundo em ponto baixo, volta de base travada e alça maciça. A execução usa anel mágico, correntinha, ponto baixo e ponto rede. O tempo estimado é de 5 horas, do anel à alça costurada.
Antes da primeira laçada: um rolo de barbante nº 4 de 200 gramas, perto de 130 metros. Agulha de crochê de 4 milímetros. Tesoura, agulha de tapeceiro, fita métrica e marcador de ponto.
O barbante nº 4 é o corpo desta peça. Ele tem perto de 1,5 milímetro de espessura, é fino o bastante pra a rede abrir bonito e forte o bastante pra segurar 5 quilos sem o fio afinar nos nós de apoio.
Barbante nº 6 entrega uma rede pesada, que já desce 4 centímetros vazia só pelo peso do próprio fio. Fio de malha sobe rápido e devolve arcos moles que abrem demais, com a laranja escapando pelo vão antes mesmo da esticada.
|
A conta desta sacola tem cinco números e nenhum é palpite:
| Correntinhas por arco | 3 | | Arcos por volta | 24 | | Voltas de rede do corpo | 22 | | Largura da alça em pontos baixos | 8 | | Esticada máxima com 5 kg | 2 cm |
|
A amostra antes da sacola: trabalhe um retângulo de 6 arcos por 8 voltas de rede, apoie na mesa sem esticar e meça. Dez por dez centímetros é a malha desta peça, e é o número que manda em todos os outros.
Cada arco de 3 correntinhas fica com 1,67 centímetro de largura e 1,25 de altura quando a malha descansa. As 22 voltas do corpo fecham perto de 27,5 centímetros, e o fundo em ponto baixo sobe mais 4 centímetros até a volta de base.
O teste da carga: pendure a sacola pronta numa maçaneta, ponha 5 quilos de arroz dentro e meça a altura depois de 10 minutos. Ela pode ganhar até 2 centímetros. Passou de 4, a volta de base não travou e a peça precisa voltar pra agulha.
A medida final: 13 centímetros de fundo, 22 voltas de rede, 38 centímetros de altura de corpo e alça de 60 centímetros de vão. A peça pronta pesa perto de 95 gramas e cabe dobrada no bolso de trás da calça.
A sacola fechada leva perto de 85 metros de barbante, o que dá dois terços de um rolo de 200 gramas. O rolo custa entre 18 e 26 reais no armarinho. Uma sacola de rede pronta na loja de utilidades custa 45.
|
|
|
|
|
II Carreira a Carreira
Da volta de base travada à alça de 60 centímetros
|
|
A volta de base é a única volta desta sacola que não pode ter vão nenhum. Ela sai em ponto baixo pegando só a alça de trás, fechada, e é ela que impede a rede de escorregar arco por arco quando a carga entra. Volta de base vazada entrega 12 centímetros de esticada e nenhum ajuste depois conserta.
|
O anel mágico: enrole o barbante duas vezes no dedo, trabalhe 8 pontos baixos dentro do anel e puxe a ponta solta até o buraco fechar por completo. Anel frouxo abre com o peso da feira e deixa a fruta pequena cair pelo centro do fundo.
As carreiras 1 a 6 do fundo: trabalhe em espiral contínua, com o marcador no primeiro ponto de cada volta. A cada volta entram 8 pontos, distribuídos igualmente. A carreira 1 fecha em 16, a 2 em 24, a 3 em 32, a 4 em 40, a 5 em 44 e a 6 em 48 pontos.
A volta de base: trabalhe uma volta inteira de 48 pontos baixos pegando só a alça de trás de cada ponto. Não pule ponto, não abra correntinha e não troque por ponto alto. Essa volta cria a dobra que levanta a parede e é o travamento que segura a rede acima dela.
A primeira volta de rede: 1 ponto baixo, 3 correntinhas, pule 1 ponto, repetido até o fim. São 24 arcos ao final da volta, contados uma vez antes de seguir. Feche a volta com ponto baixíssimo na primeira correntinha e suba 3 correntinhas.
As voltas 2 a 22 da rede: 1 ponto baixo dentro do arco da volta anterior, 3 correntinhas, repetido até o fim. Sempre 24 arcos por volta. Conte os arcos a cada 4 voltas. Arco perdido no meio da rede puxa a malha pro lado e a sacola sai torta.
A boca da sacola: depois da volta 22, trabalhe 2 voltas inteiras de ponto baixo maciço, 48 pontos por volta, uma direto na outra. As duas voltas fecham a rede em cima e dão a borda que não enrola quando a sacola é dobrada no bolso.
A alça: faça 12 correntinhas, volte em ponto baixo e trabalhe uma tira de 8 pontos baixos de largura por 60 centímetros de comprimento, em vaivém. São perto de 96 carreiras. A tira maciça é o que impede a alça de alongar e de cavar o ombro sob carga.
A costura da alça: dobre a ponta da tira 3 centímetros pra dentro da boca, alinhe com a borda e costure com a agulha de tapeceiro em quadrado, com um X no meio do quadrado. Repita do lado oposto, contando 24 pontos de distância entre as duas ancoragens.
O arremate: corte o barbante com 15 centímetros de sobra, puxe a ponta pela laçada e esconda a sobra pelo avesso, andando 5 centímetros por dentro dos pontos baixos da borda. Ponta escondida na rede aparece do lado direito e engancha na fruta.
|
|
|
|
|
III O Ponto da Semana
Por que a rede estica e a base segura
|
|
Uma sacola de rede trabalha com um tipo de carga que uma peça de mesa nunca vê: peso concentrado, aplicado por minutos, repetido semana após semana. O crochê aguenta bem, mas só quando a estrutura decide de antemão por onde a força vai passar.
O ponto rede não é tecido, é uma rede de cordas. Cada arco de 3 correntinhas guarda perto de 2,1 centímetros de fio numa curva de 1,67 centímetro de largura. A diferença entre o fio guardado e a distância entre os nós é exatamente o que a carga tem pra puxar antes de encontrar resistência.
O defeito da volta de base vazada: base em ponto alto ou em correntinha deixa a primeira fileira de arcos escorregar. Quando o pé da malha cede, cada arco pede fio emprestado ao vizinho e a esticada soma de baixo pra cima, até os 12 centímetros.
O defeito do arco de 5 correntinhas: o arco de 5 abre uma rede mais bonita e guarda perto de 3,5 centímetros de fio na curva. É fio a mais pra endireitar, e uma sacola de arco 5 estica quase o dobro de uma de arco 3 com a mesma carga.
O defeito da alça em rede: alça feita com o mesmo ponto do corpo alonga junto com ele e concentra a carga em dois arcos. Metade da esticada que aparece na sacola pronta mora na alça, e nenhuma correção no corpo resolve o que a alça entrega.
|
Não tenha em casa nada que você não saiba ser útil ou acredite ser belo.
William Morris, A Beleza da Vida, 1880
|
A frase de Morris cai bem numa sacola de feira porque a peça é os dois de uma vez, e falha nos dois ao mesmo tempo. Uma sacola que estica deixa de ser útil na primeira ida e fica feia na segunda, com o fundo raspado e a boca aberta pra fora.
O crochê que dura é o que separa as funções: uma parte segura, outra parte abre. O fundo em ponto baixo segura, a volta de base trava, a rede abre pra caber e a alça maciça carrega. Quando qualquer uma dessas partes tenta fazer o trabalho da outra, a peça se alonga e a esticada aparece.
A sacola aguenta a feira inteira quando a volta de base sai em ponto baixo pela alça de trás, o arco fica em 3 correntinhas e a alça é feita em ponto baixo maciço, sem rede nenhuma.
"Quantas vezes você viu uma sacola de rede chegar em casa mais comprida do que saiu?"
|
|
|
|
Guia Crochê do Dia · Novo
O Roteiro do Sinal
As 9 mensagens que viram o pedido de preço no WhatsApp em encomenda com sinal pago.
|
|
| |
|
Quiz da edição
|
|
Quantos pontos baixos tem a volta de base travada desta sacola de feira?
| | |